Vendeu bem no Dia dos Pais, mas sobrou? Feche a conta

Precificação · 6 min de leitura · por Roger

Vendeu bem no Dia dos Pais, mas sobrou? Feche a conta da temporada

A prateleira esvaziou. A maquininha apitou o fim de semana inteiro. O celular não parou de vibrar com “consegue mais um até sexta?”. Você acabou de guardar as últimas caixas e agora, no silêncio depois da correria, bate aquela dúvida chata: deu movimento, mas será que sobrou?

Essa pergunta é o trabalho mais importante da temporada — e quase ninguém faz. A gente fecha a venda, comemora o giro e já emenda na próxima data sem nunca olhar quanto realmente ficou. Aí a sensação de “vendi bastante” vira certeza de “lucrei bastante”, e as duas coisas não são a mesma.

Ateliê no fim da temporada, prateleiras meio vazias e caixas sendo guardadas na luz do fim de tarde

Movimento não é lucro. Faturamento não é o que ficou

O dinheiro que passou pela sua conta durante a temporada não é o dinheiro que ficou. Entre um e outro tem material, tem a sua hora, tem a taxa da maquininha, tem a peça que você refez de graça, tem o kit que saiu com desconto na pressa. Cada um desses tira um pedaço — e como nenhum aparece num extrato só, é fácil terminar a temporada com o bolso mais leve do que a cabeça imagina.

Isso não é culpa sua, e muito menos sinal de que você “cobrou errado a vida toda”. O problema é de método: ninguém te ensinou a fechar a conta de uma temporada inteira de uma vez. Vamos fechar agora, com os números ainda frescos — enquanto você lembra quantas peças fez, quantas sobraram e quanto correu para repor material.

O método: fechar a temporada em cinco movimentos

Pega o que você lembra da temporada de Dia dos Pais e passa por estes cinco passos, nesta ordem:

1. O que realmente entrou. Não o preço que você combinou, e sim o que caiu na conta. Se metade das vendas foi no cartão, parte já ficou com a maquininha. Se você deu “leve 3, pago 2 e meio”, entrou menos do que a tabela dizia. Comece pelo faturamento combinado e vá tirando os descontos que você mesmo deu.

2. O material — inclusive o que comprou correndo. Some o material das peças que vendeu. Depois lembre daquela reposição de última hora, quando a chapa acabou no sábado e você pagou mais caro para não perder pedido. Esse “mais caro” é custo da temporada.

3. A sua hora — a temporada toda. Não só o tempo na máquina ou na bancada. Conte também as horas respondendo orçamento no WhatsApp, embalando e entregando você mesmo. Se você não coloca um valor na sua hora, o “lucro” que sobrar é só o seu salário disfarçado — e disfarçado para baixo.

4. As taxas que somem. Maquininha e parcelamento comem uma fatia de tudo que passou no cartão. As taxas mudam de máquina para máquina e de tempos em tempos, então use a sua taxa real, a que está no seu app, não um número de internet.

5. O que sobrou parado. As peças temáticas que você fez e não vendeu não são lucro — são material e horas travados numa caixa que só gira ano que vem ou na liquidação. Não é prejuízo ainda, mas é caixa preso, e precisa aparecer na conta.

Mãos sobre a bancada com caderno, calculadora e peças acabadas sendo contadas uma a uma

Um exemplo do começo ao fim (números ilustrativos — refaça com os seus)

Digamos que você vendeu 30 peças a R$ 45 cada. A conta rápida que a maioria faz na cabeça é assim: 30 × R$ 45 = R$ 1.350 de faturamento; tira R$ 12 de material por peça (R$ 360) e 40 minutos de trabalho por peça a R$ 25/h (20 horas = R$ 500). Sobra R$ 490. Parece ótimo: uns R$ 16 de lucro por peça.

Mas essa conta rápida só olhou material e tempo de bancada. Quando você fecha a temporada inteira, aparecem os pedaços que ela ignorou. Todos os valores abaixo são ilustrativos — a graça está em você refazer com os seus:

| Linha da temporada | Valor (R$) |
|—|—:|
| Faturamento combinado (30 × R$ 45) | +1.350 |
| Descontos que você mesmo deu (“leve 3”) | −60 |
| Taxa de maquininha + parcelado (use a SUA taxa) | −40 |
| O que realmente entrou | 1.250 |
| Material das 30 peças vendidas (R$ 12 × 30) | −360 |
| Material reposto às pressas, mais caro | −30 |
| Sua hora de produção (20 h × R$ 25) | −500 |
| Sua hora de atendimento e entrega (6 h × R$ 25) | −150 |
| Peças refeitas de graça (material + retrabalho) | −57 |
| Lucro real da temporada | 153 |

Repara no que aconteceu: os R$ 490 da conta de cabeça viraram R$ 153 quando você olhou tudo. Por peça, o lucro real caiu de “uns R$ 16” para cerca de R$ 5,10. E ainda tem, fora da conta de lucro, R$ 72 de material parado em 6 peças temáticas que sobraram — dinheiro seu preso numa caixa, esperando liquidação.

Caixa de papelão na estante com as poucas peças temáticas que sobraram da temporada

Isso não quer dizer que a temporada foi ruim. Você não teve prejuízo: sobraram R$ 153 e ainda dá para recuperar parte do material parado numa promoção. O que a conta mostra é por que sobrou menos do que parecia — e, com esse número na mão, o próximo passo fica óbvio.

Os erros mais comuns na hora de fechar

  • Contar o preço combinado, não o que entrou. Desconto e taxa somem se você olha só a etiqueta. Sempre parta do que caiu na conta.
  • Esquecer a própria hora — ou só contar o tempo de máquina. Atendimento, embalagem e entrega são trabalho. Fora da conta, viram “prejuízo invisível” que você paga com o seu domingo.
  • Tratar peça encalhada como venda futura garantida. Produto temático de pai encalhado em agosto não vira dinheiro tão cedo. É caixa preso, não lucro.
  • Comparar com o faturamento do vizinho. O número que importa é o seu lucro real por peça, não quantos pedidos o concorrente postou nos stories.
  • Fechar a conta e não usar para nada. O balanço só vale se virar o preço da próxima data.

O que fazer a seguir

Fechar a conta não é para você se sentir mal com os R$ 153 — é para você precificar melhor a próxima temporada. Some os custos reais da conta acima (R$ 1.097) e divida pelas 30 peças: cada peça custou de verdade cerca de R$ 36,57, contando a sua hora. Ao preço de R$ 45, o lucro real era pouco. Se você quer, digamos, R$ 15 de lucro real por peça em vez de R$ 5, o preço da próxima leva precisa subir para a casa dos R$ 52 — e agora você tem o número para defender isso sem culpa.

Guarde esse fechamento em algum lugar que você ache de novo. O calendário não para no Dia dos Pais: Dia do Cliente (15/09), Dia das Crianças (12/10) e o fim de ano já estão vindo, e cada temporada que você fecha vira base para a próxima. Precificar deixa de ser chute e vira memória.

Faça o teste hoje, com os números ainda quentes: quanto entrou, quanto saiu de material e hora, quanto a maquininha levou, quanto ficou parado — e quanto, no fim, foi seu. Se o número te surpreender, ótimo: agora ele trabalha a seu favor.

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