O degrau dos R$79: por que o mesmo kit de sabonete rende diferente na Shopee e no Mercado Livre
Você fechou o preço do seu kit de Natal em R$79. Ou em R$78,90, que "converte melhor". Colocou o mesmo número na Shopee e no Mercado Livre, achou que estava resolvido — e não está. Porque nesses dois marketplaces existe um degrau invisível bem em cima dos R$79, e ele muda a taxa que você paga. Pior: ele empurra o preço para lados opostos em cada canal. O que te ajuda num te machuca no outro.
Essa é a diferença entre a alta temporada ser o mês mais lucrativo do ano e ser o mês em que você trabalhou dobrado pra descobrir, em janeiro, que quase não sobrou nada. E dá pra resolver agora, em setembro, com a conta na mão em vez do chute.

Primeiro, o custo real do kit — não o palpite
Antes de falar de degrau, a base: quanto custa de verdade fazer o kit. Vamos pegar um exemplo concreto, um Kit Natal Autocuidado com três sabonetes artesanais de 100g, embalados pra presente. A conta honesta soma cinco coisas:
- Material com desperdício — base glicerinada, essência, corante e os aparos que sobram na desforma. Uns R$11,30, já com o fator de perda embutido.
- Mão de obra — derreter, aromatizar, colorir, desenformar, cortar e curar. Uns 40 minutos do lote que cabem neste kit, a R$25/hora: R$16,50. Seu tempo é custo. Sempre.
- Energia — o derretimento puxa um pouco: R$1,20.
- Embalagem — caixa kraft, papel seda, laço, etiqueta feita à mão, sacola: R$8,00. Num kit de presente, isso pesa.
- Custos fixos rateados — o cantinho do ateliê, a internet, as ferramentas que se gastam. Uns R$4,00 por kit.
Total: R$41,00 de custo real. Guarde esse número. É dele que sai toda decisão de preço — não do que a concorrente cobra, não do que "parece bonito na vitrine". A CrafterBy monta essa conta pra você e recalcula sozinha quando a essência subir de preço, então o R$41,00 nunca fica desatualizado sem você perceber.
O degrau: os R$79 mudam sua taxa
Agora o pulo do gato. Em 2026, os dois maiores marketplaces do país têm uma quebra de regra exatamente na faixa dos R$79 — e cada um vira para um lado.
Na Shopee, a taxa do vendedor pessoa física vai por faixa de valor. Até R$79,99, você paga 20% + R$4 fixos (mais R$3 por item, do vendedor CPF). De R$80 a R$99,99, a porcentagem cai pra 14% — parece melhor — mas o fixo salta pra R$16. Faça a conta com o kit a R$79: 20% de R$79 dá R$15,80, mais R$4, mais R$3 = R$22,80 de taxa. Você recebe R$56,20. Agora suba pra R$80: 14% de R$80 é R$11,20, mais R$16, mais R$3 = R$30,20 de taxa. Você recebe R$49,80. Cobrou um real a mais do cliente e recebeu R$6,40 a menos. O fixo de R$16 devora o desconto da porcentagem. Só depois de uns R$87 esse degrau se paga. Ou seja: entre R$80 e R$87, subir o preço na Shopee te dá menos dinheiro.
No Mercado Livre, a lógica é oposta. A comissão do Clássico fica em torno de 10% a 14%, mas produtos abaixo de R$79 ainda pagam um custo variável de logística por peso e dimensão. A partir de R$79, cai só a comissão — o custo de logística por item some. Aqui, cruzar o degrau para cima é o que te salva. O mesmo kit a R$75 leva comissão mais aquele custo de logística; a R$79 leva só a comissão. Estar abaixo do degrau no ML é pagar um pedágio a cada venda.
Junta os dois: os R$79 são um teto que você não quer estourar na Shopee e um piso que você quer alcançar no Mercado Livre. O mesmo número, dois conselhos contrários. E o R$79,00 cravado é o raro ponto que funciona nos dois — no ML você já qualifica, na Shopee ainda está na faixa sem o fixo de R$16. Repare: R$78,90, aquele preço "psicológico", te joga abaixo dos R$79 no ML e re-liga a logística. O degrau se decide no centavo.

Desconto que não dói (e não te derruba do degrau)
Black Friday é dia 27 de novembro. E aqui mora a armadilha silenciosa: o desconto pode te empurrar de volta para baixo do degrau. Se você anuncia o kit no ML a R$89 e dá 20% de Black Friday, o preço cai pra R$71,20 — abaixo dos R$79 — e você volta a pagar o custo de logística que tinha acabado de fugir. O desconto que parecia esperto reabriu o pedágio.
O jeito certo é desenhar o "de/por" olhando o custo real e o degrau ao mesmo tempo. Anuncie a R$99 e dê os 20%: o preço vai pra R$79,20, continua acima dos R$79 no ML, você segue só na comissão, recebe uns R$69 e ainda lucra confortável sobre os R$41 de custo. O desconto sai do preço cheio, não do custo — e nunca cruza o degrau para o lado errado. Desconto sem essa conta é prejuízo com laço de fita.
A margem é por canal — sempre
O que o degrau escancara vale pra tudo: o mesmo kit rende um lucro diferente em cada canal. Na feira e no WhatsApp, a taxa é perto de zero, então R$79 te deixa quase os R$79. Na Shopee, some R$22,80 de taxa. No ML, some comissão (e a logística, se você escorregar abaixo do degrau). Vender pelo mesmo preço em todo lugar é aceitar lucrar bem num canal e no vermelho em outro sem nunca saber qual. A análise de margem por canal da CrafterBy mostra os cinco lado a lado antes de você anunciar — não depois.
O frete e o prazo dos Correios entram na conta
Frete não é detalhe na alta temporada — é risco. No Natal de 2025, só 68% das encomendas dos Correios chegaram no prazo, contra a meta de 96% da própria estatal; no começo de dezembro o índice já estava em 76,6%, e houve greve a partir do dia 16. Atraso que não é culpa sua vira cancelamento, reembolso e avaliação ruim.
Duas defesas. Primeira: o "frete grátis" — que na Shopee virou obrigatório desde março de 2026 — nunca é grátis pra você; calcule o custo médio por pedido (gasto total de frete ÷ número de pedidos) e embuta como custo variável no preço, senão ele come exatamente a margem que você acabou de proteger no degrau. Segunda: prometa prazo com folga e sempre confirme o frete e o prazo na sua região — perto do centro de distribuição o grátis rende, na praça distante ele inviabiliza. Não prometa data exata que depende dos Correios.

Sua conta regressiva de setembro
Faltam cerca de 77 dias pra Black Friday e 105 pro Natal. O calendário do maker é claro: setembro é definir e precificar a coleção, outubro é produzir, novembro é expedir. Precificar em novembro é se afogar. Então, esta semana:
- Feche o custo real de cada kit da coleção — material com desperdício, mão de obra, energia, embalagem e fixos.
- Posicione o preço no degrau — decida se cada kit fica cravado nos R$79, claramente acima ou claramente abaixo, e faça isso por canal, não um preço só pra todos.
- Desenhe o desconto de Black Friday a partir do custo e cheque que o preço com desconto não cai pro lado errado do degrau.
- Embuta o frete médio e defina prazos com folga, confirmados na sua região.
- Produza em outubro com a margem já garantida no papel.
A alta temporada pode ser, sim, o mês mais lucrativo do ano — quando a conta está certa antes da primeira venda. Abra a calculadora da CrafterBy, monte o custo real do seu kit e veja a margem por canal em cima do degrau dos R$79. Leva alguns minutos agora e evita a surpresa de janeiro.