Purga multicor: o filamento que dobra seu custo real
Você tira o chaveiro "Melhor Pai" da mesa, quatro cores, ficou lindo — e do lado dele tem aquela torre de purga maior que a própria peça. Uma pilha de filamento colorido, retorcido, que nunca virou produto. Você olha, acha meio absurdo, joga no lixo e segue para o próximo pedido. O preço que você cobrou levou em conta os 12 gramas do chaveiro. Não levou em conta os outros 12 gramas que foram para o lixo do lado.
Essa pilha não é sujeira. É material que você comprou, pesou na hora de fechar o rolo, e pagou por grama. Só que ela some da conta porque você precifica pelo peso da peça pronta — e a peça pronta é só metade do filamento que a impressão realmente consumiu.

Por que a purga não é problema de impressão, é problema de preço
Toda vez que a impressora troca de cor, ela precisa expulsar a cor anterior de dentro do bico antes de começar a próxima. Esse descarte tem nome — purga — e tem peso. No padrão de fábrica de máquinas com sistema de múltiplas cores (o AMS da linha Bambu, por exemplo), cada troca de cor descarta cerca de 8 gramas. Uma peça com quatro cores que se alternam algumas vezes ao longo das camadas passa fácil de 15 ou 20 gramas só de purga. Não é raro a torre de purga pesar tanto quanto a peça. Em casos extremos relatados pela comunidade, uma peça de 30 gramas saiu acompanhada de 320 gramas de purga; outra de 40 gramas gerou 70 gramas de descarte.
Repare: isso não é um defeito, não é falha de impressão, não é algo que você conserta apertando um parafuso. É o comportamento normal e previsível da impressão colorida. E é exatamente por ser previsível que ele pertence ao preço. Custo previsível que você não cobra não é economia — é margem saindo do seu bolso, em silêncio, a cada peça.
O maker que imprime peça única de uma cor nunca teve esse custo. Ele calibrou o preço num mundo onde 40 gramas de filamento viravam 40 gramas de produto. A impressão multicor quebrou essa conta, e quase ninguém refez a matemática.
A conta que ninguém faz
Vamos ao chaveiro "Melhor Pai", quatro cores. A peça pronta pesa 12 gramas. A torre de purga, nesse trabalho, também deu 12 gramas — número conservador para quatro cores. Com PLA a R$120 o quilo:
- Material que você conta: 12 g × R$0,12/g = R$1,44
- Material que a impressão consumiu: 24 g × R$0,12/g = R$2,88
Você paga R$2,88 e cobra sobre R$1,44. O custo de material real é o dobro do que entrou na sua planilha. Um real e quarenta e quatro centavos por peça que evaporou — e esse é o cenário camarada, em que a purga apenas empata com a peça.

Agora multiplique pela realidade de quem vende de verdade. Oitenta chaveiros no mês — um volume modesto para a corrida do Dia dos Pais. São 80 × 12 g = 960 gramas de purga. Praticamente um rolo inteiro de filamento, cerca de R$115, que você comprou, transformou em lixo colorido e nunca cobrou de ninguém. Um rolo por mês que não aparece em lugar nenhum, a não ser no seu estoque sumindo mais rápido do que a planilha explica.
Numa fazenda de impressão com várias máquinas rodando cores o dia inteiro, isso deixa de ser um rolo e vira vários. É a diferença entre achar que a operação está no azul e ela estar patinando.
"Mas dá pra reduzir a purga"
Dá, sim. Ajuste de volumes de descarte, ordem de cores, blocos de purga menores — há várias formas de diminuir esse desperdício, e vale a pena mexer nisso na sua máquina. Só que aqui moram duas verdades que não se cancelam.
Primeira: isso é decisão sua, na impressora. A CrafterBy não é fatiador, não dá palpite de configuração e não sabe da sua máquina melhor que você. O que ela sabe é o seu custo. Reduzir a purga muda o número — não apaga a linha. Depois de toda a otimização, ainda sobra uma quantidade de purga real, que você pagou, e que precisa estar no preço. Precifique a purga que você de fato produz, não a que você gostaria de produzir.
Segunda: é justamente a versão colorida que o cliente paga mais caro. O chaveiro multicor é o produto premium do seu catálogo — é por ele que as pessoas abrem a carteira no Dia dos Pais. Deveria ser onde a sua margem é mais larga. Só que, sem contar a purga, ele é onde a margem é mais fina, porque o material extra é invisível. Você está dando o upgrade mais trabalhoso e mais caro da sua loja quase de graça.
Como precificar o upgrade multicor de verdade
O erro é tratar a versão colorida como "a versão de uma cor mais um tantinho". Ela é outro produto, com outra conta de material. Três movimentos resolvem:
- Trate a peça colorida como um item próprio. Ela tem seu próprio peso de purga, seu próprio tempo de máquina (mais camadas, mais pausas de troca). Merece a própria linha de custo, não um chute por cima da versão mono.
- Use um fator de desperdício. Se a purga costuma bater perto de 100% do peso da peça naquele produto, o fator de desperdício de material dele é ~100%. Você define isso uma vez e todo orçamento daquele item já sai com o material real embutido — sem recalcular no susto a cada pedido.
- Cobre o upgrade como upgrade. Custa mais material e mais hora de mesa, então a versão colorida tem preço próprio e margem própria. Não é ganância; é cobrar o que a peça realmente consome.

É exatamente aqui que a CrafterBy entra. Na biblioteca de materiais você define o fator de desperdício por material e por produto, e a purga passa a ser capturada automaticamente em cada cálculo — você não refaz a conta toda vez que um pedido de última hora cai na sua caixa. E porque a ferramenta mostra markup e margem lado a lado, você enxerga na hora se a versão colorida se sustenta de verdade ou se está saindo no prejuízo maquiado de premium.
Com o Dia dos Pais a dois dias, a enxurrada de pedidos multicor de última hora — o "Melhor Pai" colorido, a plaquinha com nome, o topo de bolo — é justamente a que mais purga. É a semana em que você mais imprime e, sem essa conta, a que você mais imprime de graça. Ajuste o fator de desperdício antes da onda: você não vai vender mais por causa disso, mas vai saber, com clareza, que cada peça colorida que sair pela porta está paga. Pare de pesar só a peça. Pese o rolo.