A hora que vende a peça também custa

Precificação · 6 min de leitura · por Roger

"Oi, tem disponível?" Chega o direct, você responde. Vem a dúvida do tamanho, você manda três fotos. A cliente some, volta dois dias depois, pergunta o frete, você calcula. Fecha. Agora é embrulhar com capricho, escrever o cartãozinho, imprimir a etiqueta e ir até a agência do correio. Só então a peça sai da sua mão.

Você cobrou por aquela peça o tempo que levou pra fazê-la. Ótimo. Mas e todo esse resto? Do "oi" até o carimbo do correio se passou meia hora, às vezes mais — e ninguém pagou por ela. Essa é a hora que vende. E ela custa tanto quanto a hora que produz.

Um celular em tripé fotografando uma caneca de cerâmica feita à mão sobre a bancada

Duas horas diferentes, e você só cobra uma

A hora de produção é a que quase todo mundo já aprendeu a contar: cortar, montar, costurar, tornear, curar, lixar. É o tempo em que a peça nasce. Se você já cronometra isso e coloca no preço, parabéns — está à frente da maioria.

O problema é que a peça não vira dinheiro sozinha. Entre ela pronta na bancada e ela paga na sua conta existe um segundo bloco de trabalho, invisível justamente porque não parece "trabalho de artesão":

  • Fotografar e editar as fotos do produto.
  • Postar, responder comentários e direct, mandar áudio explicando.
  • Negociar, tirar dúvida de medida, cor, prazo.
  • Montar o orçamento e refazer quando a pessoa pede desconto.
  • Embalar: caixa, papel de seda, laço, cartão, lacre.
  • Emitir etiqueta, ir ao correio ou esperar a coleta.
  • Dar baixa, confirmar pagamento, mandar código de rastreio.

Nada disso é hobby. É venda. E venda é trabalho pago em qualquer negócio do mundo — menos, curiosamente, no do artesão que não separou essas duas horas.

A conta aberta

Vamos fazer as contas com um exemplo. As premissas são inventadas para ilustrar — troque pelos seus números reais, que é o que importa:

Imagine uma pessoa que vende 30 peças por mês e cobra, digamos, R$ 25 pela sua hora de trabalho (esse valor é escolha dela; aqui é só para a conta fechar). Ela já inclui no preço o tempo de fazer cada peça. O que ela nunca mediu é o tempo de vender.

Ela resolve cronometrar uma semana. Descobre o seguinte, por pedido:

  • Conversa no direct e negociação: 12 minutos.
  • Embalagem (o trabalho de embrulhar, não o material): 8 minutos.
  • Etiqueta, rastreio e ida ao correio, rateada por pedido: 6 minutos.

Total: 26 minutos por peça só de venda. Em 30 peças, são 13 horas por mês. A R$ 25 a hora, isso dá R$ 325 por mês de trabalho que ela estava fazendo de graça. Divididos por 30 peças, são cerca de R$ 11 por peça que sumiam do preço.

Some ainda o que é feito uma vez para a coleção toda, não por peça: a sessão de fotos. Se ela gasta 3 horas por mês fotografando e editando o catálogo, são mais R$ 75 no mês — que se diluem entre as peças vendidas (uns R$ 2,50 cada, nas 30). Repare na diferença: a conversa e a embalagem acontecem a cada pedido; a foto acontece uma vez e se reparte. Tratar as duas do mesmo jeito é como cobrar o molde inteiro em cada peça.

No fim, essa maker estava entregando algo perto de R$ 13 por peça de trabalho de venda sem cobrar. Em 30 peças, quase R$ 400 no mês que ela achava que eram "lucro" e eram, na verdade, salário não pago.

Estação de embalagem com caixa de papel kraft, papel de seda, barbante e um sabonete artesanal pronto para envio

Cuidado para não contar duas vezes

Aqui mora o erro mais comum de quem finalmente resolve incluir a hora de venda: contar a mesma coisa duas vezes. Vale separar com clareza.

Tempo é uma coisa. Material é outra. Os 8 minutos que você leva embrulhando são mão de obra de venda. A caixa, o papel de seda, o laço e o cartão são materiais — entram como custo de material, não como tempo. Você cobra os dois, mas em linhas diferentes. Se jogar tudo em "embalagem" no chute, provavelmente vai esquecer um dos dois.

A taxa do marketplace já é a taxa do marketplace. A comissão do Elo7, do Mercado Livre, da Shopee ou do link de pagamento é uma despesa de venda — mas em dinheiro, não em tempo. Ela não substitui a sua hora de negociação, nem a sua hora paga a comissão. São custos distintos, cada um na sua linha.

Frete pago pela cliente não é seu custo. Se a compradora paga o frete, ele passa por você e vai embora — não é receita nem despesa sua. O que é seu é o tempo de gerar etiqueta e ir ao correio. Não confunda o valor do frete com a hora de despachar.

A regra é simples: cada real e cada minuto aparecem uma única vez, na categoria certa. Produção é produção. Venda é venda. Material é material. Taxa é taxa.

"Mas aí meu preço fica caro demais"

Essa é a objeção honesta, e ela merece resposta honesta. Não, o objetivo não é inflar o preço até espantar a cliente. O objetivo é você enxergar o custo real e então decidir, com informação, o que fazer.

Às vezes a decisão é sim, subir R$ 11 na peça — e você vai descobrir que a maioria das clientes nem pisca, porque o valor percebido do feito à mão comporta isso. Outras vezes a decisão é reduzir a hora de venda, não repassá-la: gravar respostas prontas para as dúvidas que se repetem, fotografar a coleção inteira num dia só, padronizar a embalagem para embrulhar em 3 minutos em vez de 8, agendar a coleta em vez de ir ao correio. Cada minuto que você corta aí é margem que volta pro seu bolso sem mexer no preço.

O que você não pode é seguir sem saber. Preço no escuro não protege ninguém: só transfere, todo mês, umas centenas de reais do seu trabalho para o cliente, de presente.

Um cronômetro ao lado de um caderno aberto e um celular virado para baixo sobre a bancada, prontos para medir o tempo de venda

Como fazer isso já esta semana

Não precisa de planilha nova nem de teoria. Precisa de honestidade por sete dias:

  1. Cronometre. A cada pedido, anote os minutos de direct, de embalagem e de despacho. Anote também as horas de foto da semana, separadas.
  2. Separe do que é por peça e do que é rateado. Conversa e embalagem são por pedido. Foto e criação de conteúdo se diluem na coleção.
  3. Dê um valor à sua hora — o mesmo que você usa na produção serve — e transforme os minutos em reais.
  4. Some ao preço, em linhas separadas de material e de taxa, para não contar duas vezes.

Se quiser fazer essa conta sem risco de esquecer uma linha, dá para montá-la na CrafterBy: crie sua conta, escolha o plano Grátis e calcule uma peça de verdade — separando produção, venda, material e taxa, cada custo no seu lugar. Você vai ver, preto no branco, quanto da sua hora de venda estava indo embora de graça.

Pare de chutar. Comece a cronometrar. A hora que vende também é sua — e ela sempre custou.

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