Frete do fornecedor: por que entra no custo da peça

Precificação · 7 min de leitura · por Roger

"Paguei R$ 120 em dois quilos de material. Então o quilo custa R$ 60." Essa conta aparece na planilha de muito ateliê, e ela está errada, porque falta a linha de baixo do pedido: o frete. Se chegaram R$ 30 de frete junto, o quilo não custou R$ 60. Custou R$ 75.

Parece detalhe, mas não é. O material é a base de quase toda precificação feita à mão, e quando a base está 25% abaixo do real, tudo o que vem por cima (hora, custos fixos, margem) é calculado sobre um número que não existe.

Caixa de fornecedor aberta na bancada, com rolos de tecido, meadas de fio e um bloco de cera recém-desembalados

Custo do material é o que custou pra ele chegar

A regra cabe numa linha:

custo do material = (valor dos produtos + frete de compra) ÷ quantidade recebida

Material parado no depósito do fornecedor não serve pra nada. Ele só vira matéria-prima da sua peça quando chega à sua bancada, e o frete é o preço de trazer ele até ali. Por isso a contabilidade de comércio trata o frete de compra como parte do custo de aquisição da mercadoria, e não como despesa à parte. É prática padrão em qualquer loja. Os guias de preço de artesanato é que costumam pular essa parte: montam a fórmula material + hora + custos fixos + margem e tratam "material" como o preço da etiqueta.

A conta aberta

Um exemplo ilustrativo, com números redondos pra facilitar a leitura:

  • Pedido: 2 kg de material por R$ 120,00
  • Frete: R$ 30,00
  • Custo sem frete: R$ 120 ÷ 2 = R$ 60,00/kg
  • Custo real: (R$ 120 + R$ 30) ÷ 2 = R$ 75,00/kg

Agora vamos até a peça. Suponha uma peça que usa 150 g desse material:

  • Com o custo da etiqueta: 0,15 × R$ 60 = R$ 9,00
  • Com o custo real: 0,15 × R$ 75 = R$ 11,25

São R$ 2,25 por peça. Parece pouco até você multiplicar. Num lote de 80 peças para o fim de ano, são R$ 180 que saíram do seu bolso e não aparecem em lugar nenhum da planilha. E se o seu preço final é o custo multiplicado por um fator, a diferença cresce junto, porque o fator também está sendo aplicado sobre o número errado.

O mesmo raciocínio vale para qualquer material que chega pelo correio ou pela transportadora: tecido, fio, cera, chapa, resina, filamento, papel, embalagem. Serve para quem compra no Mercado Livre, na Shopee ou direto do distribuidor.

Saco de flocos de cera sobre uma balança de cozinha, ao lado de um caderno aberto e um envelope de envio

"Quantidade recebida": o que isso quer dizer

Divida pelo que chegou, não pelo que você pretende aproveitar. Se o pacote diz 2 kg, conte 2 kg. A sobra, o retalho e a perda no processo entram depois, no fator de desperdício do material. Se você já descontar a perda aqui e aplicar desperdício de novo mais adiante, está cobrando a mesma perda duas vezes. Cada custo entra uma vez só, no lugar certo.

Caixa com vários materiais: rateie pelo valor

Quase nunca o pedido tem um item só. Em outubro, quando muita gente abastece o estoque para a Black Friday (27 de novembro, daqui a uns 60 dias) e para o Natal, é comum chegar uma caixa com tudo misturado. Imagine este pedido:

| Item | Valor |
|—|—|
| Tecido | R$ 200,00 |
| Linha e cordão | R$ 80,00 |
| Embalagens | R$ 120,00 |
| Total dos produtos | R$ 400,00 |
| Frete | R$ 40,00 |

O frete representa 10% do valor dos produtos (R$ 40 ÷ R$ 400). O jeito mais simples e justo é somar esses 10% em cada item: o tecido passa a custar R$ 220, a linha R$ 88 e as embalagens R$ 132. Somando, R$ 440, exatamente o que saiu da sua conta. Depois, cada item é dividido pela quantidade recebida dele, como na conta anterior.

Materiais de um mesmo pedido separados em grupos na bancada: tecido dobrado, carretéis de cordão, caixinhas com papel de seda e frascos âmbar

Existe uma exceção razoável. Se um item é muito pesado e barato (um saco de gesso, por exemplo) e vem junto com um item leve e caro, o rateio por peso pode refletir melhor o que de fato encareceu o frete. Mas é refinamento. Se você nunca incluiu o frete, ratear pelo valor já corrige o grosso do erro.

Frete de compra não é frete de venda

Aqui mora a confusão que mais atrapalha. São dois fretes diferentes, e eles vão para lugares diferentes:

  • Frete de compra (de entrada): você paga pra receber material. É custo de produção. Entra no custo do material e, por consequência, no custo de cada peça que usa esse material.
  • Frete de venda (de saída): você paga (ou o cliente paga) pra peça chegar ao comprador. É despesa de venda. Ele depende do pedido, do CEP e do canal, e é tratado junto com as taxas de marketplace e a embalagem de envio, não na ficha de produção.

Misturar os dois gera dois erros opostos: ou o frete de venda entra na ficha técnica e a peça vendida na feira, sem envio nenhum, fica mais cara do que devia; ou o frete de compra é tratado como "coisa do envio" e simplesmente some.

E um cuidado com parcelamento: se o pedido de R$ 440 foi pago em 4 vezes no cartão, o custo do material continua sendo R$ 440, contado uma vez, na hora de registrar o material. Não lance as parcelas de novo como despesa do mês, porque aí o mesmo frete aparece duas vezes.

"Mas eu já coloco o frete nos custos fixos"

É a objeção mais honesta, e merece resposta. Jogar o frete num balde de custos fixos do mês e ratear por todas as peças tem três problemas.

Primeiro, o frete não é fixo. Ele muda com cada pedido, com o tamanho da caixa e com a distância. R$ 30 de frete num pedido de R$ 120 pesa 25%. Os mesmos R$ 30 num pedido de R$ 600 pesam 5%. Um valor médio no balde esconde exatamente essa diferença.

Segundo, o rateio fica injusto entre as peças. Se o frete caro veio da resina e ele é espalhado igualmente pelo mês, a peça que nem usa resina passa a carregar parte desse custo, e a que usa muita resina fica barata demais.

Terceiro, o risco de contar em dobro. Quem lança o frete no fixo e depois, um dia, atualiza o preço do material já com frete, cobra duas vezes sem perceber. Escolha um lugar só. O lugar certo é o material.

"E o frete grátis?"

Frete grátis quase sempre é frete embutido no preço do produto. Por isso, na hora de comparar fornecedores, compare o custo que chega: fornecedor A vende o quilo a R$ 68 com frete grátis; fornecedor B vende a R$ 60 mais R$ 30 de frete em 2 kg, o que dá R$ 75. O A, que parecia mais caro na vitrine, sai mais barato na sua bancada. Sem essa conta, a escolha é no chute.

Na prática, hoje

  1. Pegue o último pedido de material que chegou e ache o valor do frete no comprovante.
  2. Se era um item só, some o frete ao valor e divida pela quantidade recebida.
  3. Se era uma caixa mista, calcule o percentual do frete sobre o total dos produtos e acrescente esse percentual a cada item.
  4. Atualize o custo do material com esse número e deixe o fator de desperdício como estava.
  5. Deixe o frete de envio ao cliente fora da ficha de produção. Ele é tratado na hora de vender.

Na CrafterBy, a biblioteca de materiais não tem um campo separado para frete. Então registre o material com o valor total pago, já com o frete rateado, e a quantidade que chegou. Daí em diante, a plataforma cuida da conversão de unidades e do desperdício, e quando você atualiza o custo de um material, as peças que usam ele são recalculadas.

Pare de chutar. Comece a calcular. Crie sua conta, escolha o plano Grátis e cadastre o último material que chegou com o frete incluído. Depois, monte uma peça real que usa esse material e veja o custo dela com o número de verdade.

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