Frete de entrada: inclua esse custo no seu material

Precificação · 9 min de leitura · por Roger

O filamento custou R$100. Paguei mais R$20 para receber. Na calculadora da peça, coloco qual valor?

A dúvida aparece de novo quando chega o tecido. Você lança a compra numa planilha, calcula a impressão 3D em outro app e deixa a entrega anotada no extrato. Cada lugar guarda um pedaço da história. Na hora de fazer o orçamento, o material entra pelo preço da loja e o frete fica sem lugar na conta.

Não falta cuidado com o trabalho. Falta uma regra que acompanhe a compra até a ficha do produto, sem depender da memória de quem está calculando.

Essa regra é simples: o transporte pago para trazer o material ao ateliê faz parte do custo desse material. Depois, cada produto recebe a parcela correspondente ao que consome. Vale para PLA, tecido, MDF, ingredientes e insumos de brindes. O ofício muda; o caminho do custo é o mesmo.

Caixa de transporte aberta com um rolo de filamento claro e tecido terracota sobre uma bancada bege

O material não custa só o que aparece na vitrine

Para produzir, você precisa do insumo disponível no ateliê. Se foi necessário pagar transporte para recebê-lo, olhar apenas o preço anunciado deixa a referência incompleta.

Não é uma regra inventada para deixar a ficha mais complicada. O CPC 16, no item 11, inclui transporte e outros gastos diretamente atribuíveis à aquisição no custo dos estoques. O artigo da Domtec sobre custo de aquisição, publicado em 8 de outubro de 2026, também inclui o frete da compra e o distingue da entrega ao comprador.

Aqui, vamos aplicar esse princípio à composição de custos do maker. O tratamento fiscal da sua empresa tem particularidades que devem ser conferidas com seu contador.

Para os exemplos abaixo, sem impostos adicionais, descontos ou outros gastos de compra, a conta é:

Custo do material recebido = valor do material + frete de entrada.

São exemplos didáticos, com valores hipotéticos. Não são preços de mercado, resultados de clientes nem recomendações de preço de venda.

Duas compras de R$100 que chegam com custos diferentes

Imagine duas compras separadas. Na primeira, você recebe 1 kg líquido de PLA por R$100 e paga R$20 de frete. Na segunda, recebe 5 metros de tecido por R$100 e paga R$10 de frete.

Os materiais têm o mesmo valor de compra, mas não o mesmo acréscimo de transporte. Colocar uma porcentagem genérica de frete nos dois esconderia essa diferença.

No PLA, os R$20 acompanham o quilo inteiro

A referência da compra é:

  • Material: R$100.
  • Frete de entrada: R$20.
  • Total para receber 1 kg líquido: R$120.

Como 1 kg tem 1.000 gramas, o custo por grama fica:

R$120 ÷ 1.000 g = R$0,12 por grama.

Se uma produção consumir 100 g desse PLA, o material representa:

100 g × R$0,12 = R$12.

Usar somente o preço do filamento daria R$100 ÷ 1.000 × 100 = R$10. A diferença de R$2 nessa produção é a parcela do frete que ficou de fora.

Isso não significa cobrar os R$20 inteiros na primeira peça. Se dez produções consumissem exatamente 100 g cada, os R$2 de transporte em cada uma somariam os mesmos R$20 pagos na compra. O frete acompanha o consumo, em vez de cair inteiro sobre um único pedido.

O exemplo isola o material. Tempo de trabalho, máquina, energia e outros componentes continuam necessários na ficha. Consumo adicional de suportes ou perdas também precisa ser considerado, sem entrar duas vezes na conta.

No tecido, os R$10 acompanham os cinco metros

A segunda compra tem outra referência:

R$100 + R$10 = R$110 por 5 metros.

Logo:

R$110 ÷ 5 m = R$22 por metro.

Uma peça que consome 0,5 m recebe:

0,5 m × R$22 = R$11 de tecido.

Sem o transporte, seriam R$10. Nesse caso, a diferença é R$1 por peça com esse consumo.

Não estamos dizendo que todo produto de costura consome meio metro ou que toda impressão usa 100 g. As quantidades foram escolhidas para deixar a conta visível. Na sua ficha, entram o consumo apurado e as características reais do seu processo.

Rolo de PLA e organizador impresso de um lado; tecido dobrado, retângulo cortado e retalho do outro

O erro cresce quando cada ferramenta guarda uma regra

Uma calculadora pode fazer a multiplicação corretamente e ainda entregar um custo incompleto. Basta receber uma referência de material que deixou o transporte de fora.

No cenário acima, você poderia cadastrar R$100 no app de impressão, R$110 na planilha de costura e anotar os R$20 da entrega do PLA em outro controle. Não existe erro de multiplicação. Existe uma diferença de critério: um ofício usa o custo para receber o material; o outro usa só o preço anunciado.

É uma das partes cansativas de emendar ferramentas. Antes de comparar os produtos ou revisar o catálogo, alguém precisa descobrir o que cada número inclui. Se uma mesma referência estiver mantida manualmente em três lugares, corrigir a compra pode exigir três revisões.

A vontade de conectar essas informações não nasceu ontem. Um pedido de planilha para confeitaria publicado no 99Freelas em 26 de outubro de 2025 solicitava, entre outras coisas, “Fórmulas integradas entre todas as abas”. É um pedido individual, não uma pesquisa sobre todos os makers. Mas descreve bem uma necessidade prática: a informação que muda na origem precisa continuar coerente nas fichas.

Com os catálogos de novembro e Natal em preparação, conferir essa origem é mais útil do que acrescentar uma reserva genérica ao preço final. Você entende o custo, em vez de tentar compensar uma dúvida com outro número.

“Mas eu já anotei esse frete nas despesas”

Anotar o pagamento no controle de dinheiro é importante. Esse registro mostra que o valor saiu da conta. A ficha do produto responde a outra pergunta: quanto do material recebido foi consumido para fazer aquela peça?

Os dois registros podem existir. O cuidado é não cobrar o mesmo custo duas vezes no cálculo do produto.

Se os R$120 já são a referência do quilo de PLA, a parcela do transporte está nos R$0,12 por grama. Somar depois outra linha de “frete da compra” para recuperar o mesmo valor duplicaria esse componente. O mesmo acontece se ele também entrar num rateio geral usado para formar o custo das peças.

Antes de acrescentar uma linha, pergunte: esse gasto já está embutido em algum valor usado nesta conta? Uma base única ajuda a organizar as referências, mas não dispensa essa conferência.

E quando um frete traz vários materiais?

Nesse caso, o transporte precisa ser distribuído entre os itens da compra por um critério que faça sentido. Não é obrigatório colocar todo o valor no primeiro material cadastrado.

Considere outro cenário, diferente das duas entregas anteriores: uma única encomenda traz dois materiais de R$100 cada, com R$30 de frete total. Se dividir pelo valor dos materiais for adequado a essa compra, cada um representa metade dos R$200:

R$100 ÷ R$200 = 50% da compra.

Então, cada material recebe:

50% × R$30 = R$15 de frete.

As duas referências passam a R$115, e a conferência fecha: R$115 + R$115 = R$230, exatamente os R$200 de materiais mais R$30 de transporte.

Mas essa divisão não é uma regra universal. Se uma chapa pesada ou volumosa concentra o custo do transporte, repartir apenas pelo preço pode distorcer a compra. Use a informação disponível sobre a cobrança e um critério justificável, como peso quando ele representar melhor o gasto.

O importante é conseguir explicar a distribuição e conferir que o total foi considerado uma vez. Não precisamos transformar o rateio em um palpite permanente dentro de cada app.

Frete de entrada não é entrega ao cliente

Os nomes parecidos confundem, mas os trajetos são diferentes.

Frete de entrada traz o insumo do fornecedor ao ateliê. Ele compõe a referência do material usada nos exemplos.

Entrega ao cliente leva o produto pronto ao comprador. Deve ser considerada conforme a condição da venda: cobrada à parte, assumida por você ou incluída na oferta. Não deve ser escondida no cadastro do PLA como se fosse transporte da compra.

Se o fornecedor não cobrar frete de entrada, não acrescente um valor fictício. Se houver cobrança, não deixe de considerá-la apenas porque apareceu separada no pagamento. O objetivo é representar o que aquela compra exigiu, não aumentar o custo por precaução.

Uma base para a referência, fichas próprias para cada ofício

No CrafterBy, o ponto de partida é a biblioteca de materiais. Para os exemplos das compras separadas, você registra a referência apurada de R$120 por 1 kg de PLA e R$110 por 5 metros de tecido, conforme a unidade usada no cadastro.

O cálculo do frete e de uma eventual distribuição entre materiais precisa ser feito e conferido antes desse registro. Não estamos prometendo rateio automático de transporte, leitura de nota ou tratamento fiscal pelo produto.

A biblioteca reúne materiais, conversões de unidade e fatores de desperdício. Os templates reutilizáveis organizam o consumo e os demais componentes de cada produto. Assim, você trabalha com uma referência de material coerente e mantém as diferenças entre uma peça impressa, um trabalho em MDF, uma receita, uma peça costurada ou um brinde.

Caderno aberto cercado por peça impressa em 3D, recorte de MDF, bico de confeitar separado em um prato, linha e pequeno brinde

A análise de margem ajuda a avaliar o preço com essa composição mais completa. Os relatórios CSV e PDF permitem consultar e compartilhar os custos sem reconstruir a explicação a cada orçamento. Isso não garante lucro: o preço ainda precisa considerar todos os componentes aplicáveis e a realidade da venda.

Centralizar custos também não significa abandonar o fatiador, o desenho de corte ou as ferramentas próprias de cada produção. Significa não precisar manter uma regra de aquisição diferente em cada calculadora de ofício.

O ganho prático é de clareza. Quando chegar uma nova compra, você sabe qual referência conferir. Quando preparar outra ficha, sabe o que aquele custo de material inclui. E, quando o catálogo crescer, não precisa depender da memória para lembrar onde o frete foi parar.

O transporte até o ateliê acompanha o material. A parcela consumida acompanha o produto. Uma base comum mantém essa lógica entre todos os seus ofícios.

Experimente a calculadora gratuita do CrafterBy, após criar sua conta, e traga os custos de todos os seus ofícios para uma base só.

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