Aluguel e luz não são "do bolo" nem "do laser": são da produção inteira
No app de 3D tem um campo "custos fixos". No app de confeitaria também. Na planilha do laser você criou uma linha "aluguel" num sábado à noite e nunca mais mexeu. E a costura? Na costura você nem lembra de pôr.
Aí chega a pergunta que ninguém consegue responder sem suar: o aluguel do ateliê, afinal, entra em qual preço?
Se você faz mais de um ofício no mesmo espaço, essa dúvida não é detalhe. É um dos jeitos mais silenciosos de errar preço — para cima em um produto, para baixo em outro — sem perceber nada no fim do mês além de uma sensação de que "o dinheiro não fecha".

O problema: cada app só enxerga o próprio pedaço
Custo fixo (ou custo indireto, como algumas ferramentas chamam) é tudo o que o ateliê gasta independentemente do que você produziu: aluguel, a luz do cômodo que não é da máquina, internet, contador, a assinatura da loja online. Não pertence a nenhum produto específico. Pertence ao negócio.
E é aí que a fragmentação atrapalha. Um app de precificação de 3D é feito para quem só faz 3D — ele parte do princípio de que todo o seu custo fixo é coberto pelas peças impressas. O app de confeitaria parte do mesmo princípio para os bolos. Nenhum dos dois está errado dentro da própria lógica. O erro nasce quando você usa os dois ao mesmo tempo.
Na prática, quem emenda ferramentas cai quase sempre em um de três buracos:
- Cobra duas (ou quatro) vezes. Coloca o aluguel inteiro em cada app. Cada ofício "paga" o ateliê sozinho, e o preço sobe até o cliente desistir.
- Joga tudo num ofício só. "A cozinha é o espaço maior, então o aluguel vai pro bolo." O bolo fica caro, e a peça impressa sai barata demais — subsidiada sem você decidir isso.
- Esquece. A costura, que "é só uma máquina no canto", não carrega nada de custo fixo. Cada necessaire vendida ajuda menos do que parece.
Nenhum desses erros aparece num app isolado. Eles só ficam visíveis quando você olha o negócio inteiro — justamente o que um enxame de ferramentas não deixa fazer.
A conta, passo a passo
Vamos a um exemplo com números redondos (são ilustrativos — troque pelos seus).
Custos fixos do mês:
- Aluguel do ateliê: R$ 900
- Luz e água do espaço (fora o consumo das máquinas): R$ 180
- Internet: R$ 100
- Contador e taxas: R$ 150
- Assinatura da loja online: R$ 170
Total: R$ 1.500 por mês.
Agora, as horas. Não as horas que você passa no ateliê — as horas de produção, aquelas em que você está de fato fazendo produto. Responder cliente, fotografar e ir ao correio é trabalho de verdade, mas não é hora que entra na ficha de um produto. Digamos que num mês típico você produza assim:
| Ofício | Horas de produção no mês |
|—|—|
| Confeitaria | 40 h |
| Laser/MDF | 25 h |
| Costura | 20 h |
| 3D (tempo de mão: preparar, retirar, acabar) | 15 h |
| Total | 100 h |
A taxa de custo fixo é uma divisão só:
R$ 1.500 ÷ 100 h = R$ 15 por hora de produção.
Um número. Para todos os ofícios.

O que isso faz com cada produto
Com a taxa única, cada produto carrega custo fixo na proporção do tempo que ocupa do ateliê:
- Bolo com 3 h de trabalho: 3 × R$ 15 = R$ 45
- Necessaire com 1 h 30 min: 1,5 × R$ 15 = R$ 22,50
- Jogo de 4 porta-copos de MDF com 40 min de mão (arquivo, corte, lixa, montagem): 0,67 × R$ 15 = R$ 10
- Vaso impresso em 3D com 20 min de mão: 0,33 × R$ 15 = R$ 5
E a prova de que a conta fecha: 40 h × R$ 15 + 25 h × R$ 15 + 20 h × R$ 15 + 15 h × R$ 15 = R$ 1.500. Se você vender as horas que planejou, o aluguel está pago. Nem um real a mais, nem um a menos.
Agora compare com o buraco número 1, o do aluguel lançado inteiro em cada app. O app de confeitaria divide R$ 1.500 só pelas 40 h de bolo: R$ 37,50 por hora. O mesmo bolo de 3 h passa a carregar R$ 112,50 de custo fixo, em vez de R$ 45. O app de 3D divide R$ 1.500 pelas 15 h de impressão: R$ 100 por hora, e o vaso de 20 min carrega R$ 33 em vez de R$ 5. Somando os quatro ofícios, seus preços estariam tentando cobrar R$ 6.000 de um aluguel de R$ 1.500. Não é margem de segurança. É preço que espanta cliente.
O buraco número 2 é mais traiçoeiro, porque a soma bate. Se o aluguel todo vai para o bolo, a confeitaria carrega R$ 37,50/h e os outros três ofícios, zero. O total recuperado continua R$ 1.500 — mas o bolo fica caro frente à concorrência e o vaso 3D sai R$ 5 mais barato do que deveria, em cada unidade. Na hora de decidir qual ofício vale mais a pena empurrar, você decide com números tortos.

"Mas o forno gasta muito mais luz que a máquina de costura"
Gasta. E é por isso que o consumo da máquina não entra aqui.
A separação que faz tudo funcionar é esta: o que é de uma máquina vai no custo daquela máquina (energia enquanto ela roda, desgaste, manutenção). O forno ligado 50 minutos entra no bolo. A impressora rodando 6 horas entra no vaso. O tubo do laser entra nos porta-copos. O custo fixo só pega o que é realmente compartilhado — a lâmpada do teto, o aluguel, a internet. Misturar os dois é o que faz alguém dividir a conta de luz inteira por hora e concluir que a costura é cara.
"E o 3D, que roda sozinho de madrugada?"
Justamente por isso a taxa vai sobre as horas de mão, não sobre as horas de máquina. A impressora ocupando a madrugada não impede você de confeitar durante o dia; o que ocupa o ateliê — e o seu tempo — são os 20 minutos de preparar, retirar e acabar. O tempo de máquina já está pago pelo custo-hora da própria impressora.
Não existe método perfeito de rateio, e seria desonesto dizer que existe. Ratear por hora de produção é uma escolha sensata quando os produtos levam tempos muito diferentes, como num catálogo multiofício. Se todos os seus produtos fossem parecidos entre si, um percentual fixo sobre o custo faria o mesmo trabalho com menos esforço.
"Minhas horas mudam todo mês"
Mudam, e outubro é a prova: Dia das Crianças, Dia do Professor, Halloween, e a Black Friday a menos de dois meses. Se você calcular a taxa com as horas de um mês cheio, ela fica baixa demais para os meses calmos. Use a média de um mês típico, arredondada para baixo. Nos meses de pico, a taxa não muda — você só dilui o aluguel em mais produto, e a diferença vira folga. Nos meses fracos, o preço já estava preparado. Reveja a conta quando algo grande mudar: aluguel novo, uma máquina a mais, um ofício novo.

Como isso vive numa base só
No CrafterBy, o custo fixo mora num lugar: Configurações → Custos indiretos do negócio. Você cadastra as despesas do mês e as horas de produção, e a plataforma mostra o total mensal e a taxa horária (total ÷ horas). Uma vez, para o ateliê inteiro.
Em cada produto — seja o bolo, o porta-copos ou a necessaire — a aba de custos indiretos tem o botão Aplicar Taxa Horária, que multiplica as horas de mão de obra do produto pela taxa do negócio. Se um grupo de produtos parecidos pede percentual, o botão Usar Padrão aplica o % definido. As horas de mão de obra ficam separadas do custo das máquinas, que você cadastra à parte — exatamente a separação que evita a confusão do forno.
Como tudo está na mesma organização, com a mesma biblioteca de materiais e os mesmos templates de produto, dá para ver a margem de todos os ofícios lado a lado e exportar em CSV ou PDF. Mudou o aluguel? Você atualiza a despesa num lugar, em vez de caçar o campo "custos fixos" em quatro ferramentas diferentes.
Pare de adivinhar de quem é o aluguel. Ele é do negócio inteiro.
Experimente grátis e traga todos os seus ofícios para uma base só.