Custo máximo: a conta de trás pra frente na Shopee

precificacao · 7 min de leitura · por Roger

Custo máximo: a conta de trás pra frente na Shopee

"Todo mundo vende essa vela por R$49,90. Se eu cobrar R$70, ninguém compra. Se eu cobrar R$49,90… eu ganho alguma coisa?"

Se você já ficou com o celular na mão, olhando a busca da Shopee, fazendo essa pergunta, este texto é pra você. E a resposta curta é: depende de quanto a sua peça custa. A resposta útil é outra, e é melhor: dá pra descobrir quanto a sua peça PODE custar para aquele preço fechar a conta.

Quase todo conteúdo sobre preço ensina o caminho de ida: soma material, soma mão de obra, multiplica por alguma coisa, chega no preço. Esse caminho é necessário. Mas tem uma hora em que o mercado já te deu o preço, e aí a pergunta muda. Não é mais "quanto eu cobro?". É "cabe?".

O preço de vitrine é um dado. Trate como um

Artesã olhando no celular a busca de velas no marketplace, com sua vela pronta e a caixinha de envio na bancada

Preço de vitrine é a faixa em que peças parecidas com a sua estão vendendo de verdade no marketplace. Para encontrar, busque o seu produto, ignore os anúncios de fábrica e de revenda (eles jogam outro jogo), e olhe os artesanais parecidos que mostram quantidade vendida. Não pegue o mais barato. Pegue a faixa onde está o movimento.

Digamos que, para uma vela de soja em pote de vidro, essa faixa seja R$49,90. Esse número não é sentença. É o ponto de partida para uma conta honesta.

A conta de trás pra frente, passo a passo

Desde 1º de outubro de 2026, a Shopee cobra de vendedor CNPJ (MEI incluso) 20% de comissão + R$4,50 fixos por item em peças até R$79,99. A taxa fixa subiu R$0,50 há poucos dias, e muita tabela por aí ainda mostra R$4. Vamos com o número atual.

Começa pelo preço e vai tirando tudo que não é seu:

| Item | Valor |
|—|—|
| Preço de vitrine | R$49,90 |
| Comissão de 20% | − R$9,98 |
| Taxa fixa por item | − R$4,50 |
| Reserva para cupom/campanha (5%) | − R$2,50 |
| Embalagem (caixa, papel, fita, etiqueta de frágil) | − R$2,50 |
| Lucro que você quer limpo | − R$12,00 |
| = Custo máximo de produção | R$18,42 |

Em fórmula, pra guardar:

Custo máximo = Preço × (1 − comissão − cupom − imposto %) − taxa fixa − embalagem − lucro desejado

Repare em duas coisas. Primeiro: o lucro entra antes, como um custo que você se recusa a cortar. Se você deixar o lucro para "o que sobrar", ele vira sempre a última coisa a ser sacrificada. Segundo: esses R$18,42 não são só material. É tudo que a peça consome para existir — material, sua hora e a fatia dos custos fixos do ateliê.

Uma nota sobre imposto: no exemplo, a artesã é MEI, então o DAS é fixo por mês e entra no rateio dos custos fixos, não como porcentagem por venda. Se você está no Simples Nacional e paga, digamos, 6% sobre o faturamento, esse número entra no parêntese. E muda bastante coisa: R$49,90 × (1 − 0,20 − 0,05 − 0,06) = R$34,43; menos R$19 de taxa fixa, embalagem e lucro, o custo máximo cai para R$15,43. Três reais a menos de espaço por peça.

Caso 1: a vela cabe (no limite)

Mão despejando flocos de cera de soja num pote de vidro sobre uma balança de cozinha digital, com essência e pavios ao lado

Agora a conta de ida, peça por peça, para ver se a vela entra nos R$18,42.

  • Cera de soja: 180 g a R$32/kg = R$5,76
  • Essência: 10 ml = R$1,60
  • Pote de vidro: R$2,80
  • Pavio com base: R$0,45
  • Tampa e etiqueta do produto: R$0,60
  • Desperdício de 5% na cera e na essência (o que fica na jarra, o que respinga, a vela que sai torta): R$0,37

Material: R$11,58.

Mão de obra: um lote de 12 velas leva umas 3 horas, entre derreter, aromatizar, envasar e acabar. São 15 minutos por vela. A R$20 a hora, dá R$5,00. Custos fixos rateados (DAS, energia, internet, aluguel do cantinho) somam R$1,50 por peça.

Custo de produção: R$18,08. O custo máximo era R$18,42.

Cabe. Com R$0,34 de folga. Ou seja: a peça fecha, você recebe sua hora e ainda leva R$12 limpos, mas não tem espaço nenhum para erro. Uma compra de cera mais cara ou um cupom maior que o previsto e os R$12 encolhem. Saber disso antes do pico de vendas já é metade da vitória.

Caso 2: o amigurumi não cabe (e tudo bem)

Coelho de amigurumi em crochê pela metade, com agulha e novelo, ao lado de um coelho pronto na bancada

Agora o coelhinho de crochê, também vendido por volta de R$49,90 na mesma busca. Material: uns R$8 de linha, enchimento e olhinhos. Tempo: 3 horas de agulha. A R$20 a hora, são R$60 só de mão de obra.

O custo máximo era R$18,42. O amigurumi custa uns R$69,50 para existir. Não é que a margem ficou apertada. A conta não fecha nem de longe.

Aqui mora a parte importante: isso não quer dizer que o seu crochê vale menos. Quer dizer que aquele preço de vitrine foi feito por quem cobra quase nada pela hora, por peça industrial, ou por quem ainda não fez essa conta. E não tem vergonha nenhuma em já ter estado nesse grupo. Quase todo mundo que faz à mão já esteve.

Quando a peça não cabe, você tem quatro saídas, e todas são decisões legítimas:

  1. Reduzir o tempo de verdade, com um modelo mais simples ou menor, não trabalhando de graça.
  2. Subir o preço e assumir a posição. Pela conta de ida, o amigurumi precisaria custar na casa de R$128 para pagar sua hora e deixar os mesmos R$12. Atenção: acima de R$79,99, a tabela da Shopee muda (de R$100 a R$199,99 são 14% + R$20), por isso a conta precisa ser refeita na faixa nova, não só multiplicada.
  3. Vender em outro canal, como encomenda pelo Instagram, feira ou loja física, onde não há 20% de comissão no meio.
  4. Vender abaixo do custo de propósito, como vitrine para atrair cliente, sabendo exatamente quanto isso custa por mês. Consciente é diferente de no escuro.

A única opção ruim é a quinta: anunciar por R$49,90 porque todo mundo anuncia, e descobrir no fim do mês que trabalhou de graça.

"Mas aí não é o mercado decidindo meu preço?"

É a objeção mais comum, e é justa. A resposta é não. A conta de trás pra frente não diz quanto você deve cobrar. Ela diz se você consegue jogar naquele preço. Quem decide continua sendo você.

As duas contas se completam. A de ida (custo → preço) diz quanto a sua peça vale para você. A de volta (preço → custo máximo) diz quanto o mercado está disposto a pagar naquele canal. Se elas se encontram, ótimo. Se não se encontram, você ficou sabendo antes de produzir 30 peças para o 11.11, e não depois.

Cuidado com o "markup 2"

Muita gente aprende a regra de multiplicar o custo por 2 e pronto. Vamos testar na vela: R$18,08 × 2 = R$36,16 de preço.

Passa pela Shopee: R$36,16 × 0,75 (comissão + cupom) = R$27,12; menos R$4,50 de taxa fixa e R$2,50 de embalagem = R$20,12; menos o custo de R$18,08 = R$2,04 de lucro. O "dobro" virou dois reais.

É aqui que vale separar dois nomes que vivem sendo confundidos. Markup é por quanto você multiplica o custo para chegar no preço. Margem é quanto do preço fica com você no fim. No caso 1, os R$12 limpos sobre R$49,90 são uma margem de 24%, e para chegar nela o markup sobre o custo de produção foi de quase 2,8 vezes. Em marketplace, markup baixo some inteiro nas taxas.

Pare de chutar. Comece a calcular.

Essa conta é simples no papel e chata de manter no dia a dia: a cera sobe, a taxa muda, você quer testar outra plataforma, o cupom da campanha é diferente. É aí que o CrafterBy ajuda. Você cadastra seus materiais uma vez na biblioteca (com conversão de unidade, de quilo para grama, e fator de desperdício), monta a peça como template reutilizável, coloca sua hora e seus custos fixos, e a análise de margem mostra o que sobra depois das taxas do marketplace. Mudou o preço da cera? Atualiza num lugar e todas as peças que usam ela se recalculam.

O seu trabalho manual tem valor, e esse valor merece aparecer no extrato, não só no elogio do cliente. Teste a calculadora gratuita do CrafterBy, descubra o custo máximo de cada peça por marketplace e precifique com confiança. O link está na bio.

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