Comissão de indicação: sai do preço ou da sua hora?

Precificação · 7 min de leitura · por Roger

"Ela me indicou pra noiva e no fim pediu 10%. Eu já tinha mandado o orçamento. Paguei, né?"

Essa conversa acontece em todo ateliê que vende para casamento, festa ou decoração. A cerimonialista, a decoradora, a organizadora de eventos indica o seu trabalho, a encomenda fecha, e depois aparece a "parceria": uma porcentagem sobre o pedido. No mercado de casamentos isso tem até nome, o BV (bônus de venda), e é comum ver 10% como referência. Na decoração existe a chamada reserva técnica, que varia de 5% a 20% sobre o produto indicado.

Se você aceita ou não pagar, a decisão é sua (lá embaixo tem uma observação sobre isso). Este artigo trata de outra pergunta: se você combinou pagar, de onde sai esse dinheiro? Porque se ele não estiver no preço, sai de um lugar só: das suas horas de trabalho.

Comissão não é custo de produção. É custo de venda.

Comece separando duas coisas que costumam ir para o mesmo saco.

Custo de produção é o que a peça consome para existir: material, embalagem, as suas horas na bancada e a parte das contas fixas do ateliê (aluguel, luz, DAS) que cada peça carrega. Ele é o mesmo quer a peça seja vendida na feira, no Instagram ou por indicação.

Despesa de venda é o que você paga para aquela venda acontecer: comissão de marketplace, taxa da maquininha, frete grátis que você banca e, aqui, a comissão de quem indicou. Ela muda conforme o canal, e quase sempre é uma porcentagem do preço final, não do custo.

Esse detalhe muda tudo. Se a comissão é 10% do preço que a cliente paga, ela cresce junto com o preço. Por isso "somar 10% no fim" não fecha a conta, como você vai ver abaixo.

Encomenda de mini vasos de cerâmica feitos à mão, cada um numa caixa kraft, enfileirados na bancada do ateliê

A conta aberta: 60 lembranças para um casamento

Um exemplo com números hipotéticos, só para mostrar o mecanismo. Uma ceramista recebe, por indicação de uma cerimonialista, um pedido de 60 mini vasos para lembrança de casamento. A troca seria igual para um chaveiro de couro, um sabonete ou um porta-guardanapo bordado.

Premissas:

  • Material e embalagem (argila, esmalte, queima, caixa kraft): R$ 6,20 por peça
  • Tempo de trabalho: 14 minutos por peça, a R$ 30 a hora, ou seja, R$ 7,00
  • Parte das contas fixas do ateliê: R$ 2,80 por peça
  • Custo de produção: R$ 16,00 por peça
  • Preço que ela já cobra de qualquer cliente, com o lucro dela: R$ 25,00 por peça

O pedido inteiro sai por 60 × R$ 25 = R$ 1.500. São 60 × 14 min = 14 horas de bancada.

Cenário 1: a comissão sai "de dentro"

Ela mantém os R$ 1.500 e paga 10% à cerimonialista: R$ 150. Recebe R$ 1.350.

R$ 150 a R$ 30 a hora são 5 horas de trabalho. Das 14 horas que ela passou modelando, esmaltando e embalando, 5 ficaram sem pagamento. É isso que a pergunta do título quer dizer: a comissão que não está no preço não some. Ela sai da hora de quem fez.

Cenário 2: "é só somar 10%"

Ela cobra R$ 25 + 10% = R$ 27,50 por peça. Total: R$ 1.650. A comissão, que é 10% do preço final, fica em R$ 165. Sobra R$ 1.485.

Faltam R$ 15. Não chega a ser uma tragédia num pedido. Mas o erro se repete a cada indicação, e quanto maior a porcentagem, maior o buraco: com 20%, somar 20% deixa faltando R$ 60 nesses mesmos R$ 1.500.

Cenário 3: dividir, não somar

Se a comissão é uma fatia do preço final, o que sobra para você é 90% desse preço. Então o preço certo é o valor que você precisa receber dividido por 0,90:

R$ 1.500 ÷ 0,90 = R$ 1.666,67, ou R$ 27,78 por peça (arredondando para R$ 27,80, o pedido fica em R$ 1.668).

Conferindo: 10% de R$ 1.668 são R$ 166,80 de comissão. Sobram R$ 1.501,20. As 14 horas estão pagas, o material está pago e o lucro que ela já tinha definido continua lá.

Painel de amostras de tecidos e lâminas de madeira de uma decoradora ao lado de um vaso de cerâmica, uma almofada tecida e uma tigela de madeira

Quando entra também o cartão: uma taxa de cada vez

Agora a noiva quer pagar no cartão, parcelado. Aqui aparece um erro que não tem nada a ver com a cerimonialista, mas costuma vir junto: contar a taxa do parcelamento duas vezes.

São dois caminhos, e você escolhe um:

  • Você absorve a taxa. Ela entra no preço junto com a comissão. Supondo uma taxa de 4,99% no parcelado (número só de exemplo; use a da sua maquininha ou link de pagamento), as duas mordidas somam 14,99%. O preço vira R$ 1.500 ÷ (1 − 0,10 − 0,0499) = R$ 1.500 ÷ 0,8501 = R$ 1.764,50. Conferindo: R$ 176,45 de comissão + R$ 88,05 de taxa = R$ 264,50, e sobram exatamente R$ 1.500.
  • A cliente paga os juros do parcelamento. Aí a taxa já está na parcela dela. Se você também embutir os 4,99% no preço, a cliente paga a mesma coisa duas vezes, e o seu orçamento fica caro sem motivo.

Repare também que as porcentagens se somam antes da divisão. Dividir por 0,90 e depois por 0,9501 dá um número um pouco diferente, porque aí uma taxa incide sobre a outra. Combine com a parceira e com a sua maquininha sobre qual valor cada uma calcula, e faça a conta uma vez só.

"Mas aí a cliente indicada paga mais caro"

É a objeção mais honesta, e ela tem duas respostas possíveis. As duas são legítimas, desde que você saiba qual escolheu.

Opção A: um preço só para todo mundo, com o custo de venda já dentro. Você calcula o preço com uma margem de canal que cubra a indicação, e cobra igual de quem chega direto. Na venda direta, essa diferença paga outras despesas de venda que também existem: o tempo de atendimento no WhatsApp, a foto, o anúncio. Ninguém paga "taxa de indicação" visível, e a sua tabela não muda conforme quem mandou a cliente.

Opção B: aceitar que a comissão saia da sua margem. Às vezes a parceria vale isso: a decoradora manda três casamentos por temporada, e você prefere ganhar menos por pedido. Tudo bem. Só que agora você sabe o tamanho da decisão: no exemplo, são 5 das 14 horas. Decida olhando esse número, não no susto, depois que o orçamento já foi enviado.

O que não funciona é a terceira via, a mais comum: descobrir a comissão depois de fechar o preço e pagar calada.

Três coisas para combinar antes do orçamento

  1. A porcentagem, por escrito. Uma mensagem já basta. Se a comissão só aparece depois do orçamento enviado, não há conta que a encaixe.
  2. Sobre o que ela incide. Sobre as peças? Sobre o pedido com frete e embalagem especial? Sobre a montagem no local? 10% de R$ 1.500 não é o mesmo que 10% de R$ 1.900.
  3. Quando ela é paga. De preferência depois que a cliente pagou você. Se você adianta a comissão antes de receber o saldo, está financiando a parceria com o seu caixa.

Uma observação necessária: algumas profissões têm regras próprias sobre receber comissão de fornecedor. O conselho dos arquitetos (CAU), por exemplo, considera a reserva técnica antiética para o arquiteto. Este artigo não incentiva a prática. Ele parte de um fato: se você combinou pagar, isso é custo, e custo que não está no preço sai do seu bolso.

Caderno aberto com colunas desenhadas a lápis, calculadora de mesa e moedas na bancada, com mini vasos embalados ao fundo

Faça a conta com a sua peça

A ordem é sempre a mesma, para qualquer ofício:

  1. Calcule o custo de produção real: material com desperdício, embalagem, suas horas e a parte das contas fixas.
  2. Defina o preço que você quer receber limpo.
  3. Some as porcentagens de venda daquele canal (comissão de indicação, taxa de cartão, se você absorver) e divida o preço por (1 − a soma).
  4. Confira de trás para frente: preço menos cada porcentagem precisa devolver o valor do passo 2.

Na CrafterBy, os passos 1 e 2 ficam salvos na peça, e você não precisa refazer tudo a cada pedido indicado. Crie sua conta, escolha o plano Grátis e cadastre uma peça real do seu ateliê: material, tempo, embalagem. Com o custo de produção na tela, a pergunta "dá para pagar 10% à parceira?" deixa de ser chute.

Pare de pagar parceria com a sua hora. Coloque-a no preço, ou decida conscientemente que ela sai da margem.

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